Minha mãe, aliás, ainda mora na mesma casa, que fora construída para meus avós maternos. Casinha onde cresci....
Mas divago...
Naquele tempo era sagrado: todo começo de mês minha mãe vestia seu vestido bom ( um vestido bonito azul marinho) e íamos, ela e eu, pagar o aluguel da casinha para minha tia.
Essa minha tia era a tia rica da família.
Casara com um homem muito trabalhador que multiplicara a minúscula herança do pai e se tornara dono de fazenda. Era o boom da soja na época, e se não me engano era isso que ele plantava. Não lembro mais...
Pois então... todo começo de mês meu pai colocava o dinheiro contadinho na mão da minha mãe e lá íamos nós atravessar a cidade pra ir na casa da tia.
Nunca esqueci. Nem das idas, o passeio mensal só eu e minha mãe... e muito menos da casa.
Era uma casa grande, a maior que eu já havia entrado. Tinha até piscina e um pomar no fundo... tão grande que tinha escada pra entrar na parte da sala e dos quartos. Não era escadaria, eram só uns degrauzinhos, mas para minhas perninhas de criança eram imensas...
E isso não é lembrança de criança não, era mesmo enorme a casa, com muitos cômodos e muitos móveis, uma varanda imensa com um fogão a lenha bem grande onde minha tia cozinhava imensos panelões de comida para os "peões" que vinham trabalhar na fazenda e pousavam aqui na cidade.
E tinha a sala... ah a sala...
Tinha sofás enormes (e ai pode ser mesmo memória da visão de uma criança ) e as paredes revestidas de, coisa impressionante pra mim na época, papel de parede.
Era um papel de parede florido, com rosas cor de rosa pálidas e fundo creme.
Mas, embora o papel de parede da sala me deixasse impressionada, nada se compara ao quarto da minha tia.
Era um quarto grande, (talvez minha casinha coubesse dentro dele) com móveis de madeira escura e com as paredes recobertas de papel de parede, aquele tipo de papel de parede para quarto bem específico, característico daqueles anos 70.
Mais ou menos assim:
Achava aquilo o máximo da chiqueza... papel de parede na parede... cama grande, guarda-roupa de ponta a ponta na parede grande...
Imagina o efeito que aquilo tinha na menininha que morava na casinha de 3 cômodos com piso de vermelhão e parede caiada.
Claro que essas são lembranças da menininha que ia uma vez ao mês na casa da tia. Vai ver que era tudo muito diferente, que a cama não era tão grande e nem o guarda roupas tão majestoso. Só lembro do papel de parede do quarto ser azul. Acho que tinha passarinhos...
O tempo muda a nossa percepção, altera as lembranças...
A única certeza é que a casa era mesmo muito grande pois existe até hoje, embora tenha sido vendida há muitos anos e minha tia hoje viva em Goiás, já bem velhinha e viúva. E as paredes revestidas de papel de parede...
Engraçado como essas lembranças afetam a gente, né?
Para sempre ficou gravado em minha memória essas idas à casa da tia Palmira. Os ovos de galinha caipira que ela dava pra minha mãe, galinhas da fazenda... Ovos que eu era obrigada a tomar apenas levemente fervidos, quase crus, todo dia ao acordar. Criança dos anos 70 e 80, gente... sobrevivemos a cada coisa que só quem viveu pra saber...
Anos depois dessa fase de ir pagar o aluguel meus pais se separaram, eu adolescente com dois irmão menores. Meu tio, o dono da nossa casinha... lembro dele sentado na nossa cozinha dizendo pra minha mãe que, a partir daquele dia, ela não precisava mais pagar aluguel. Que ela podia criar os filhos sossegada e que nunca sairia dali enquanto vivesse.
Faz mais de 30 anos isso. E de fato nunca mais pagamos nada. Casei, meus irmãos também, minha mãe vive lá até hoje.
Mesmo depois da morte do meu tio os primos, herdeiros, mantiveram a promessa. Isso deu segurança pra gente naqueles dias difíceis, que a luta era pra ter o que comer.
Cresci, a vida seguiu, em 2001 comprei minha casa, no começo eu mesma pintava as nossas paredes.
Engraçado que nunca me ocorreu ter papel de parede em casa... na meninice achava tão inalcançável e hoje, sabendo que não é, nunca tentei...
Ainda acho muito lindo, faço até pasta de inspiração no Pinterest. Quem sabe um dia...
Ficaram as lembranças daqueles anos duros, eu tão pequena, a longa caminhada atravessando a cidade só com o dinheiro do aluguel na bolsinha da minha mãe, o vestido azul marinho, os ovos que eu odiava, a casa grande da minha tia e o papel de parede do quarto, em tons de azul.
Talvez com passarinhos...




